Não existem alturas certas para recebermos uma pandemia a nível global,
ainda para mais uma pandemia que, como esta, tem levado tantas vidas com a
doença Covid-19, mas, numa altura em que somos obrigados a ficar confinados, no
nosso lar, temos muitas outras ferramentas disponíveis para ultrapassar melhor
esta quarentena.
Então, vamos lá: uma quarentena em 2000 seria a mesma coisa que uma
quarentena em 2020? Julgo que não. Da mesma forma que, atualmente, uma ida à
casa de banho não é igual a uma ida à casa de banho no ano 2000, em que
ficávamos a ler os rótulos dos objetos que temos espalhados pelo WC. Atualmente,
ir ao WC fazer “o número 2” com, apenas, 1% de bateria pode ser algo muito
preocupante, mas tudo passa.
Passar uma quarentena com um smartphone, com todo um mundo lá
dentro, de certeza que é mais interessante do que passar com um Nokia 3310,
apenas com o jogo da serpente para nos entreter. Contudo, tínhamos o MIRC (ou
por outra, alguns tinham o MIRC).
Digamos que não era algo de fácil acesso e, do bairro de onde venho,
acho que apenas duas ou três pessoas tinham acesso ao MIRC.
Já tínhamos a TV por cabo, provavelmente íamos ficar vidrados na MTV o
dia todo. Já nos dias que correm, podemos procurar todo o tipo de conteúdos
pelo YouTube, desde documentários que só versam sobre limões, a vídeos de 24
horas apenas com um fundo preto… sim, isso existe e, acreditem, têm muitas views,
tentem procurar.
Ao nível da comunicação com os amigos e familiares, pois bem, passou a
ser quando quisermos, os recursos e soluções são ilimitadas e basta ter uma boa
Internet (é claro). Ainda me recordo das dores de cabeça que tinha para fazer a
gestão da minha lista vip, o tarifário que mais tempo tive antes de
aparecer o (sagrado!) “Moche”, para não falar nas conversas por mensagem, que não
eram tão simplificadas e estávamos limitados a um “X” número de caracteres. A
própria memória do telemóvel não era grande coisa, por isso tínhamos de
selecionar aquelas mensagens mais bonitas para guardar, do estilo: “amo-te bué”
ou, “fizeste-me ir à lua” … e ir apagando de forma seletiva à medida que as
mensagens melhoravam.
Sou Pai de duas crianças, uma com 13 anos, outra com 3. Sinceramente, acho que esta quarentena sem toda
esta tecnologia ia dar muito mais dores de cabeça do que na verdade está a dar,
uma birra da criança de 3 anos é rapidamente esquecida pela voz do Luccas Netto
vindo de um iPad. A playstation atualmente permite que os miúdos possam
estar, todos juntos, na mesma sala, a falarem uns com os outros, através de
microfones, web cams, etc… que inveja tenho dessa parte! No meu tempo,
jogar na playstation apenas era possível contra a própria consola, atualmente
podem estar a jogar com pessoas do Brasil, Estados Unidos ou Canadá.
Não sei como seria no meu tempo estar em quarentena: ter de andar na rua
a fazer covas para jogar ao berlinde ou, andar à procura de um bom terreno para
ir jogar ao pião. Depois chegar a casa muito rápido para ver o “Bocas”, porque
se perdesse esse episódio, só podia ver no dia seguinte. Era fixe também, mas
agora acho que é muito mais! Dos jovens às crianças, já vimos que em 2020 a
quarentena é mais “cool”.
Falemos agora do impacto que, este momento em que vivemos, tem tido para
os artistas com quem lido todos os dias: este mês de abril, para a indústria do
Hip Hop, seria um mês muito importante, porque era o mês das viagens de
finalistas. Por esta altura, assistimos a uma verdadeira invasão nacional em
território Espanhol, que acontece há mais de 20 anos! Ultimamente, com o “boom”
do Hip Hop, os palcos são dominados por Rappers do país inteiro,
desde Sam The Kid, Jimmy P, Piruka, Wet Bed Gang ou a Liga Knockout. Contudo, face
à situação atual, tivemos todos de ficar em casa, o que tem ajudado os artistas
a puxar ainda mais pela veia criativa, não só em Portugal, mas pelo mundo inteiro.
Nos Estados Unidos da América, por exemplo, assistimos ao veterano Dj D Nice a passar
de 200 mil seguidores, para mais de 1 milhão de seguidores no Instagram, isto em
apenas 24 horas, com os seus lives com Dj sets. Aqui em Portugal,
tivemos vários festivais de música em casa, desde de grandes nomes a um apenas
dedicado ao Hip Hop, uma adaptação que seria totalmente impossível há
uns anos. Vivemos numa era em que os artistas não vivem apenas dos shows
e conseguem ter uma segurança de remuneração mensal através das plataformas
digitais, tais como Spotify, YouTube, Apple Music, etc… apesar do income
dos shows ser uma fatia muito grande do bolo, os streamings são
uma boa forma de fazer algum dinheiro enquanto o mundo está parado. Em suma: o
que podemos esperar disto tudo?! Uma overdose de música nova quando tudo isto
passar e um maior convívio entre as pessoas, porque agora sentimos falta de
muita coisa que tínhamos, simplesmente, dado como garantido.
-Sobre Nuno
Varela-
Nuno Varela, 36 anos, casado, pai
de 2 filhos, criou em 2006 a Hip Hop Sou Eu, que é uma das mais antigas e
maiores plataformas de divulgação de Hip Hop em Portugal. Da Hip Hop Sou
Eu, nasceram projetos como a Liga Knockout, uma das primeiras ligas de batalhas
escritas da lusofonia, a We Deep agência de artistas e criação musical e a
Associação GURU que está envolvida em vários projetos sociais no
desenvolvimento de skills e competências em jovens de zonas
carenciadas.Varela é um jovem empreendedor e autodidata, amante da tecnologia e
sempre pronto para causas sociais. Destaca sempre 3 ou 4 projetos, mas está
envolvido em mais de 10.
Publicado originalmente no Gerador a 4 de abril de 2020.