Como preto,
nascido e criado nesta cidade, sempre concordei com este tipo de afirmações. O racismo
não está pior, está a ser filmado. O facto de, hoje em dia, tudo ser
documentado, dá a sensação de caos e de pânico para quem não vive nessa
realidade. Como diz o Sam the Kid, se nunca foi ouvido ou visto é fresh,
o mesmo se passa com estes assuntos.
Portugal não
é um país racista, mas está cheio de racistas. E um racista não é só aquele que
grita aos quatro ventos “preto vai para a tua terra!”. Existem várias situações
que nós, pretos, passamos diariamente e, por mais que pensemos que algo mudou,
há sempre algo que nos puxa de volta para a realidade e nos mostra que está
tudo na mesma.
Vivo numa
relação inter-racial, sendo certo que discriminação e racismo é algo muito
presente na nossa família. Até o meu filho, que tem apenas 13 anos, já viveu
isso no futebol, num desporto que, principalmente para a idade dele, deveria
ser apenas fomentador de diversão e educação.
Em relação à violência
policial, para mim isso é um cancro que cresce à velocidade da luz. E não vou
mentir: sinto um orgulho enorme quando vejo um polícia preto, é como se me sentisse
seguro perto dele, porque para dizer a verdade, eu não me sinto seguro na
presença de nenhum polícia. Não quero com isto generalizar, porque sei que nem
todos os polícias me vêm como inimigo, mas ao longo destes 36 anos, se analisar
todas as situações que tive com polícias, nunca foram boas. Bem, poderão muito
bem pensar: “para teres encontros com a polícia, coisa boa não devias estar a
fazer”… errado! Por mais errado que uma pessoa seja ou seja errada a situação
em que se encontra, a polícia deve, sempre, saber agir, devem ser eles (os
polícias) a saber controlar as situações e gerir os conflitos, afinal, foram
formados e treinados para isso (ou será que não?), caso contrário nem deviam
ser polícias.
Já assisti a
inúmeras situações de racismo policial com amigos, com o meu pai ou com o meu
filho. Isto é normal?! Não, não é.
Ao ver o vídeo
perturbante de George Floyd, pensei em quantas situações estive em que o
desfecho poderia ter sido esse. E isto fez-me pensar se o polícia que o matou,
de forma cobarde, tinha a mesma forma de pensar que o polícia que matou o meu
amigo Snake.
Aconteceu nos
Estados Unidos, mas também acontece aqui em Portugal e já aconteceu em França,
eles deviam defender-nos, mas, antes pelo contrário, estão a matar-nos.
Eu cresci num
meio onde os abusos policiais sempre estiveram presentes, até ao ponto de começar
a vivê-los na pele. Sempre me fez uma certa confusão, pois eram pessoas
formadas e que deveriam ter a capacidade de defender, ajudar e ser amigo de
toda a comunidade. Aquela minha ideia do polícia bom, que visitava as escolas
primárias, afinal estava completamente errada.
Às vezes,
parece que os policias bons estão nas passadeiras a ajudar as velhinhas a atravessar
a rua e os polícias maus andam pelas ruas da cidade, à caça de vítimas.
Como é
possível um homem estar algemado, no chão, completamente imobilizado e a suplicar
pois não consegue respirar e ninguém faz absolutamente nada? Foram quatro polícias…
um só homem sem oferecer qualquer resistência… só vejo maldade nisto, não
consigo chegar a outra conclusão.
Esta é a
altura em que devemos evitar as redes sociais, porque a quantidade de pessoas
com diarreia cerebral a comentar este assunto, sem qualquer noção do que fala, é
assustadora. Isto para nós, pretos, pode servir como um abre olhos, ou até
mesmo criar uma onda de raiva que só pode ser prejudicial para nós próprios
(passo o pleonasmo). Dá raiva, dá muita raiva, o que vemos por aí escrito, mas
temos de ser mais inteligentes e, acima de tudo, formar e explicar os direitos
humanos a quem está à nossa volta.
Pelas redes sociais vi um jovem PRETO que dizia algo: “às vezes é fod*d* ser preto no mundo, parece que estão todos contra nós”. Tocou me bastante pois, possivelmente, com a idade dele seria assim que eu pensava. A minha resposta a esse jovem foi: “mano, ser preto é lindo, se esqueceres a escravidão e fores ver a nossa história antes disso, mesmo depois vais sentir muito orgulho. Fod*d* é esta merda de mundo em que vivemos e estas merdas de pessoas que o habitam”.
*Frase dita por Will Smith
-Sobre Nuno Varela-
Nuno Varela, 36 anos, casado, pai de 2 filhos, criou em 2006 a Hip Hop Sou Eu, que é uma das mais antigas e maiores plataformas de divulgação de Hip Hop em Portugal. Da Hip Hop Sou Eu, nasceram projetos como a Liga Knockout, uma das primeiras ligas de batalhas escritas da lusofonia, a We Deep agência de artistas e criação musical e a Associação GURU que está envolvida em vários projetos sociais no desenvolvimento de skills e competências em jovens de zonas carenciadas.Varela é um jovem empreendedor e autodidata, amante da tecnologia e sempre pronto para causas sociais. Destaca sempre 3 ou 4 projetos, mas está envolvido em mais de 10.
Publicado originalmente no Gerador a 30 de maio de 2020.