América, States, EUA, USA temos tantas designações para esse território que desde muito cedo parece que invadiu a nossa casa sem ser convidado, os Estados Unidos são de facto um caso de estudo, seja através de séries, filmes ou músicas temos a sensação que eles sempre estiveram ali e sempre soubemos muito mais sobre eles do que eles sobre nós.
Conhecer os EUA sempre esteve na minha lista de países obrigatórios a visitar, muito pela grande influência que tem no mundo, mas também por serem os grandes responsáveis pela cultura que represento e amo, o Hip Hop. Por ser tão longe e saber que existem algumas burocracias, sempre atirei isso lá para os meus 40: “Quando for cota vou aos States”.
E afinal fui mais rápido do que estava à espera e com pouco tempo de planeamento. As coisas na minha vida funcionam um bocado assim e têm resultado, por isso é para continuar, este género de desorganização-organizada.
Devo agradecer à minha grande rede de contactos e especialmente ao M.GUTI AKA ESPANHOL, um dos Og’s do Hip Hop em Portugal que quando foi contactado pelo projeto Next Level se lembrou de mim por todo o trabalho feito nos últimos anos no Hip Hop, o que me fez ser um justo representante de Portugal nos Estados Unidos.
Estava destinado ser um Setembro atribulado, pois tinha marcado uma viagem ao Marrocos e tinha sido convidado para estar em um outro projeto na Polónia, mas do nada surge esta oportunidade que batia exatamente nos dias que estaria na Polónia e em Marrocos. Duas semanas na América (wowww!). Primeiro recusei por já ter as outras viagens acertadas e não querer falhar a compromissos profissionais.
Mas vamos lá pensar, ir ao país onde nasceu o Hip Hop para representar o meu país num encontro global com mais 11 países parece que é aquele tipo de oportunidades que só aparecem uma vez na vida, por isso vamos lá organizar isto porque o Varela tem de ir. “Adeus Marrocos. Havemos de nos encontrar numa outra altura, e será que me deixam chegar depois da conferência começar?”, era suposto estar em Washington dia 10 e dia 10 ainda estava na Polónia, e sim disseram que era super tranquilo e queriam muito que eu fosse, e assim foi.
Sobre o processo do visto, pormenores da viagem a ida a Polónia e ter de vir a Lisboa buscar o passaporte para ir para os EUA há tanto a dizer que os caracteres dados pelo Gerador não seriam suficientes para esta linda história, mas se algum dia nos cruzamos na rua, perguntem que eu conto esta aventura.
Queria me focar no que realmente fui lá fazer: ver o verdadeiro power do Hip Hop nos Estados Unidos e acima de tudo a valorização da cultura afro lá.
O Next Level é um projeto criado pelo Meridian International Center e financiado pelo governo Americano, por isso qualquer um dos representantes se sentiu assim, tipo a última bolacha do pacote. Apesar dela, em muitos casos vir toda partida, foram 11 ou 12 países que durante duas semanas estiveram entre Washington e Nova York. A fazer o quê? A falar sobre Hip Hop, sobre como podemos usar o Hip Hop para melhorar as nossas comunidades, fizemos workshops de gestão de conflitos, empreendedorismo, indústria da música e acima de tudo aprendemos uns com os outros conhecendo outras realidades, que tem o Hip Hop em comum. Umas mais duras que as outras, mas todas muito parecidas, pois a cultura está bem presente nos diferentes elementos.
A viagem tem mil pontos de destaque, foi uma experiência única, mas o que teve mais impacto para mim foi estar em Bronx onde o Hip Hop nasceu. Fomos abençoados com um dia inteiro no Bronx que começou com uma ida ao Museu do Hip Hop que ainda está em modelo pop-up e vai estrear em 2024 e terminamos num restaurante de Hip Hop, um espaço no qual o Hip Hop está presente em todos os cantos e onde tivemos o privilégio de privar, falar, brindar com alguns pioneiros da nossa cultura.
Foram duas semanas de muito networking, conhecimento e abertura para projetos futuros em solo nacional, e venho com uma vontade enorme de querer mudar as comunidades utilizando sempre o Hip Hop como ferramenta. Como disse na minha recente participação no programa Bittak do Canal Q “Não há nada no mundo como o Hip Hop” e de facto é verdade, podem tentar encontrar algo, mas não existe. Ele salva, muda e tem impacto na vida das pessoas.
Assim de uma forma muito resumida ficam com um pouco do que foi a minha experiência por terras Americanas. Quero voltar e quero explorar muito mais. Este encontro global da Next Level fez o meu networking aumentar muito e agora posso dizer que tenho ligações e amigos nos seguintes países: Peru, Gana, Argentina, Bolívia, Polónia, Etiopía, Barbados, Emirados Árabes Unidos, Egito, Chile, Mongólia e Nepal.
Além de querer voltar aos Estados Unidos gostaria de visitar estes meus companheiros nos seus territórios e ver como aplicam tudo o que aprenderam no programa da Next Level. Já vejo até isto como uma série da Netflix. Se estás a ver isto e tens um contacto na Netflix, diz algo, hehehe!
Paz!
-Sobre Nuno Varela-
Nuno Varela, 36 anos, casado, pai de 2 filhos, criou em 2006 a Hip Hop Sou Eu, que é uma das mais antigas e maiores plataformas de divulgação de Hip Hop em Portugal. Da Hip Hop Sou Eu, nasceram projetos como a Liga Knockout, uma das primeiras ligas de batalhas escritas da lusofonia, a We Deep agência de artistas e criação musical e a Associação GURU que está envolvida em vários projetos sociais no desenvolvimento de skills e competências em jovens de zonas carenciadas. Varela é um jovem empreendedor e autodidata, amante da tecnologia e sempre pronto para causas sociais. Destaca sempre 3 ou 4 projetos, mas está envolvido em mais de 10.
Publicado originalmente no Gerador a 29 de outubro de 2022.