Madrid-São Paulo-Salvador da Bahia

Conseguimos sentir através de outros textos meus que viajar é umas das coisas que mais gosto de fazer na vida. Gosto de contar uma história sobre querer ir trabalhar para o Aeroporto de Lisboa. Na formação, o formador pergunta a todos o porquê de quererem trabalhar no aeroporto, alguns disseram que queriam mudar de área,…

Conseguimos sentir através de outros textos meus que viajar é umas das coisas que mais gosto de fazer na vida. Gosto de contar uma história sobre querer ir trabalhar para o Aeroporto de Lisboa.

Na formação, o formador pergunta a todos o porquê de quererem trabalhar no aeroporto, alguns disseram que queriam mudar de área, outros que estavam a precisar de trabalho e eu disse que tinha que ver com o bom feeling que o aeroporto dava, e a sensação de estarmos perto de poder pisar um novo destino.

O formador disse compreender perfeitamente e saber de vários estudos feitos nesse sentido e, de facto, durante a formação, só a ideia de estar a ouvir falar em outros países, outros aeroportos, vários tipos de aviões, eram boas sensações. Acabei por não ficar lá a trabalhar, mas foi uma boa experiência que me ensinou muito sobre aeroportos.

Vamos lá falar de viagens.

Eu e a minha esposa fazemos muitas viagens pela Europa, ilhas, mas nunca fizemos uma grande viagem todos juntos, e decidimos ir até a América Latina, ao grande Brasil. Um casal amigo ia casar em São Paulo, e juntámos o útil ao agradável: ir ao casamento e fazer umas mega férias em família. Planeámos tudo e decidimos que seria bom conhecer outros pontos do Brasil e não apenas São Paulo. De muitos destinos vistos, escolhemos Salvador da Bahia. Não é um destino muito falado pelos portugueses que visitam o Brasil, mas pela sua cultura e história, sempre foi um destino que estava na minha lista de locais a visitar no Mundo.

A viagem foi planeada com muito tempo de antecedência e tínhamos algumas referências do que queríamos ver. É uma viagem cansativa, mas muito rica. Com um adolescente e uma criança, até pensei que seria pior, mas oxalá não foi. Fomos de Lisboa para Madrid e de Madrid para São Paulo.

O Brasil é o segundo país no mundo com o maior número de pretos, a seguir à Nigéria. Era uma expectativa muito alta. Chegando a São Paulo, ficámos instalados num grande hotel que, para boas-vindas naquele país, foi do melhor – um pequeno almoço excelente, uma piscina lindíssima e um staff muito atencioso e educado, mas estranhei porque quase não vi pretos pelas zonas onde andei.

Apesar de estar de férias num lugar muito bonito e estar com a minha família, feliz, em vibe de férias, não conseguimos deixar de reparar nas diferenças sociais e em como o Brasil é tão rico e tão pobre ao mesmo tempo. São Paulo é gigante, a cidade não dorme, existem mil coisas para ver, mas tudo sob um medo constante e receio que vá acontecer algo. Nunca perguntámos, foram sempre as pessoas a alertar para termos cuidado com telemóveis, fios, andar com pouco dinheiro, etc.

Penso que, se tivéssemos chegado como chegamos sempre, querendo explorar, ter-nos-íamos aventurado mais, mas, se bem me lembro, não houve um motorista da Uber que não tenha falado de assaltos. Éramos constantemente avisados para ter cuidado. Andámos muito por São Paulo nos poucos dias que lá tivemos e percebemos que existe muito mais para ver. É uma cidade que, apesar de todas as diferenças sociais e pobreza, tem o seu encanto. Simplesmente temos de aprender a viver nela. Passados uns dias, já sabíamos como nos movimentar por lá e já estávamos misturados entre os brasileiros.

Salvador da Bahia

Sem dúvida, um destino obrigatório para todos no planeta Terra, mas em especial para todos os pretos, de todos os países. A cultura e a história aqui são muito, muito ricas. Dois textos no Gerador não seriam suficientes para eu partilhar tudo o que aprendi, vivi e senti. Ali, sentes, a vibe no ar é forte, sente-se algo que não sei explicar.

Mal chegámos ao aeroporto, sentimos logo um clima completamente diferente. Era inverno em São Paulo e andámos sempre de casacos e calças. Chegámos a Salvador, estava muito calor, nada agradável para os 4 turistas vindos de São Paulo. Para falar a verdade, acho que fui enganado pelas novelas. Eu sempre pensei que o Brasil era calor o ano todo e, mal chegámos, fiquei com a sensação que não estava no país certo, muito frio.

A vibe no aeroporto, com pretos por todo o lado, era tal e qual a vibe de um aeroporto em África. Sente-se o calor das pessoas e nota-se que estamos a lidar com um povo diferente. Antes de viajar, tinha sido alertado que, para quem viaja para diferentes estados, parece que estamos a visitar diferentes países, e é mesmo verdade.

Ficámos em Itapuã na Casa Divina, era onde ficava a casa de Vinicius de Moraes e foi transformada num hotel – uma zona muito bonita perto da praia, no caminho do aeroporto para o hotel. Nota-se ser uma cidade cheia de história e cultura.

De Itapuã fomos até ao centro de Salvador, onde tínhamos uma guia turística à nossa espera e, assim, começámos a nossa visita pelos sítios históricos e a conhecer mais sobre Salvador desde do tempo dos escravos. Escolhemos um tipo de visita que nos levasse aos pontos relacionados com a influência africana em Salvador e com os escravos. Em duas horas, aprendi muita coisa que depois explorar na internet. É uma visita um pouco dura para quem está de férias, mas necessária, muito necessária. Há muita informação em Salvador que deveria estar ligada a Cabo Verde, Angola e Guiné e simplesmente essa ligação não existe. Cada vez mais, tenho a certeza que aprendemos coisas todos dias e, o que aprendi sobre os pretos em Salvador, é algo que todos os pretos dos PALOP tinham a obrigação de saber. Digo dos PALOP, mas se for a ver bem é no geral.

“Se não soubermos quem fomos, não saberemos para onde queremos ir.”

Não me posso esticar mais, mas fica a faltar falar da gastronomia, das praias, do povo e outras mil coisas. Talvez faço um texto dedicado só a Salvador.

-Sobre Nuno Varela-

Nuno Varela, 36 anos, casado, pai de 2 filhos, criou em 2006 a Hip Hop Sou Eu, que é uma das mais antigas e maiores plataformas de divulgação de Hip Hop em Portugal. Da Hip Hop Sou Eu, nasceram projetos como a Liga Knockout, uma das primeiras ligas de batalhas escritas da lusofonia, a We Deep agência de artistas e criação musical e a Associação GURU que está envolvida em vários projetos sociais no desenvolvimento de skills e competências em jovens de zonas carenciadas. Varela é um jovem empreendedor e autodidata, amante da tecnologia e sempre pronto para causas sociais. Destaca sempre 3 ou 4 projetos, mas está envolvido em mais de 10.

Publicado originalmente no Gerador a 9 de julho de 2022.

Nuno Varela